Hoje é um dia especial, pois na escola, a professora Sílvia organizou uma visita de estudo a um Museu situado numa cidade a apenas alguns quilómetros de distância da escola!

 

Todos os meninos estão entusiasmados e Inês de Cristal não é exceção.

 

Feliz por ver a sua filha tão empolgada com este dia que prometia ser de aventura, a mãe de Inês veste-lhe um vestido magnífico e prepara-lhe um lanche bem saudável para a visita.

 

Chegadas à escola, Inês repara num grande autocarro que já aguardava pelos meninos e de dentro saiu o motorista, um senhor de meia-idade que simpaticamente pegou na menina e a levou para dentro, arrumando a sua cadeira de rodas no porta bagagens.

 

- Olá meninos…estão entusiasmados? – Perguntou a professora Sílvia através do microfone do autocarro!

 

- SIM!!!! – Disseram todos os meninos em uníssono enquanto terminavam de ocupar os seus lugares!

 

Depressa a Iara se sentou ao lado da Inês, colocou o cinto de segurança mas de tão deslumbrada que estava não conseguia parar sossegada no banco.

 

- Então Inês, estás preparada para a grande aventura de hoje? – Perguntou a Iara com um grande sorriso!

 

- Sim Iara, estou muito curiosa pois nunca visitei um Museu. Que tipos de coisas se vêm neste Museu? Sabes? – Questionou a Inês.

 

- Olha, a minha mãe explicou-me que vamos ver achados arqueológicos! É uma palavra muito difícil mas que quer dizer que são coisas que os nossos antepassados deixaram e que foram descobertos por uns senhores arqueólogos que são aqueles que escavam à procura destes achados para que nós hoje possamos conhecer a nossa história! – Compreendes?

 

A Inês estava bastante confusa pois não percebia o porquê de os seus antepassados deixarem as coisas enterradas! Isso parecia-lhe muito estranho! Não teria sido mais fácil se eles tivessem feito como os seus avós que guardam as coisas mais antigas no sótão?

 

- Oh Iara, mas porque é que eles enterraram as coisas? São uma espécie de tesouro, é? – Perguntou a Inês.

 

- Inês, eu não sei muito bem, mas acho que sim! Quando chegarmos ao Museu penso que vamos compreender melhor! – Respondeu a Iara que também não compreendia muito bem como estas coisas antigas tinham aparecido!

 

Quando finalmente chegaram ao Museu, o Sr. Aurélio, o motorista que vinha a ouvir a conversa das duas meninas, saiu, montou a cadeira de rodas da Inês e regressou para pegar na menina.

 

- Olhem meninas…aproveitem bem este dia! Sei que vai ser espetacular pois a História dos nossos antepassados é muito importante para que consigamos perceber a nossa própria evolução e darmos o devido valor àquilo que hoje temos! – Explicou o Sr. Aurélio enquanto colocava Inês na sua cadeira.

 

As meninas esperaram pela professora Sílvia e pelos seus colegas que rapidamente se organizaram numa fila à porta do Museu.

 

- Meninos…este é o Museu de Arqueologia! Para aqueles que nunca visitaram um Museu, este é um espaço que procura preservar a memória das pessoas e dos lugares, um espaço que guarda as histórias mais interessantes e que, como poderão ver…nos faz viajar no tempo! – Começou por explicar a professora Sílvia a toda a turma.

 

- Agora, peço-vos que entrem calmamente, não mexam em nada e oiçam com atenção o que o senhor responsável por este espaço vos vai explicar para que aproveitem bem a vossa visita! – Advertiu a professora .

 

Todos os meninos foram subindo os dois degraus que davam acesso à porta de entrada do Museu, à exceção da Inês que não conseguia ultrapassar esta barreira.

 

A Inês ficou triste a olhar para a porta do Museu, onde já se encontrava um Senhor alto, de cabelo grisalho, com óculos redondos como só os estudiosos usam.

 

O Sr. Alberto, responsável pelo Museu apercebeu-se da barreira que o seu Museu tinha e desceu as escadas para ajudar a levantar a cadeira da Inês para que a menina pudesse entrar e desfrutar desta visita.

 

Chegados ao espaço do Museu de Arqueologia, Iara, que não largava a mão da sua amiga Inês sussurrou-lhe ao ouvido: - Repara, há prateleiras cheias de coisas, isto serviria para quê?

 

A Inês vislumbrava os corredores imensos do Museu e apercebeu-se que para aceder às salas precisaria de ultrapassar mais uma barreira. É que os diferentes espaços estavam um degrau mais acima que os corredores e esse seria um obstáculo difícil de ultrapassar pois não havia qualquer rampa que pudesse ajudar a menina a vislumbrar as diferentes peças arqueológicas.

 

- Iara, eu não vou conseguir visitar o Museu! Olha…existem muitos degraus!

 

A Inês sentiu-se muito confusa e ansiosa ao mesmo tempo…como poderia ela conhecer o Museu se não conseguia ver as coisas que ele guardava?

 

A Iara permaneceu ao lado da sua amiga. Se ela não conseguisse ver o Museu a Iara também não queria conhecer um lugar que não podia ser visitado por todas as pessoas!

 

Assim que a turma começou a visita, começaram também os problemas com as acessibilidades e rapidamente todos chegaram à conclusão que aquele Museu não estava preparado para receber pessoas especiais já que não existiam rampas, os móveis que expunham as peças estavam muito altos e ninguém numa cadeira de rodas conseguia ver os objetos que se encontravam nas prateleiras mais altas.

 

Além disso, as legendas estavam colocadas ao lado de cada peça e como tal, mesmo quando a Inês se afastava para conseguir ver alguma coisa, não conseguia ler o significado e a história de cada objeto.

 

Na turma da Inês também estava uma menina, a Matilde, que usava óculos e tinha algumas dificuldades de visão e ela também estava a ter problemas com o fato das legendas dos objetos estarem escritas com letras tão pequeninas!

 

A visita, mesmo com todos os esforços do Sr. Alberto em explicar tudo aos meninos não estava a correr nada bem! Inês e toda a sua turma estavam muito desiludidos com este Museu que, tantas expectativas, tinha criado em cada um!

 

O Sr.Alberto, sentiu-se muito incomodado com o assunto e apercebeu-se que o Museu do qual tanto se orgulhava, afinal não podia ser apreciado por todas as pessoas. Alberto estava envergonhado!

 

- Inês, peço-te imensa desculpa! Nunca me tinha apercebido da necessidade de garantirmos que o nosso Museu de Arqueologia fosse 100% acessível. Até hoje! Também a toda a turma eu peço desculpa, estou muito chateado com esta situação! – Disse Alberto visivelmente transtornado com o facto de existirem meninos que não puderam desfrutar do seu Museu e conhecer os tesouros que ele guarda!

 

A professora Sílvia estava igualmente triste com a visita até que Iara a puxou para o lado e lhe sussurrou ao ouvido:

 

 - Professora nós poderíamos ajudar o Sr. Alberto a tornar o Museu de Arqueologia um espaço de todos e para todos!

 

A professora estava confusa…como poderiam eles ajudar?

 

Iara continuou a explicar: - Professora, se todos mostrarmos as nossas dificuldades ao Sr. Alberto e lhe fizermos uma lista do que ele precisa de mudar no Museu, ele pode transformar este espaço!

 

Foi nesse momento que a professora percebeu o que a Iara lhe estava a tentar explicar e dirigiu-se ao Sr. Alberto.

 

- Sr. Alberto, se nos unirmos e lhe mostrarmos quais as barreiras que precisam de ser melhoradas, promete que vai trabalhar no assunto para que possamos voltar e desfrutar verdadeiramente deste espaço?

 

- Mas é claro que sim! Se vocês me ajudarem a perceber o que está mal, prometo do fundo do meu coração que quando regressarem ao Museu de Arqueologia ele vai estar preparado para vos receber!

 

Nesse instante todos os meninos, incluindo a Inês de Cristal, se separaram e cada um foi chamando o Sr. Alberto que apontava num caderninho tudo o que lhe iam dizendo.

 

- Sr. Alberto…repare, a minha avó anda de bengala e vê muito mal! Se não colocar uma fita de cor no chão pela qual ela se possa guiar para saber o caminho, não poderá fazer a visita sozinha! – gritou o José Pedro!

 

- Sr. Alberto…olhe, as legendas das peças estão feitas com uma letra demasiado pequena! Eu não consigo ler bem a história de cada objeto! – Lembrou a Matilde!

 

- Sr. Alberto, chegue aqui. A casa de banho é grande mas não tem barras que ajudem a Inês a sair da cadeira de rodas para fazer xixi! Além disso, se eu vier aqui com os meus pais e o meu irmão bebé e ele precisar de mudar a fralda, a minha mãe não tem sitio onde o deitar e terá que se ir embora! Não poderia mandar pôr aqui na parede uma daquelas coisitas que se abrem e ficam tipo estrado onde se deitam os bebés para mudar a fralda? - reparou a Iara!

 

- Sr. Alberto! – Gritava a Mariana - Tenho um tio que é cego! Porque é que não pede a alguém que traduza as legendas para braile! Sabe o que é? – o Sr. Alberto nem teve tempo de responder, e logo a Mariana continuou - É um tipo de escrita que está em relevo para permitir às pessoas cegas, através do simples toque, ler o que se pretende explicar! O sistema Braille é um processo com uma base de 64 símbolos em relevo e que é utilizado por pessoas cegas ou com baixa visão e a leitura é feita da esquerda para a direita, ao toque de uma ou duas mãos ao mesmo tempo! O meu tio lê com as duas mãos e é muito rápido!

 

Alberto estava pasmado com tanta e tão preciosa informação que os meninos lhe estavam a transmitir e continuava a apontar tudo bem depressa!

 

- Sr. Alberto tem que arranjar uma forma de fazer rampas para estes degraus! Até nem são muito altos, mas a minha cadeira de rodas não os consegue subir! – Exclamava a Inês de Cristal, agora mais entusiasmada pois percebeu que o responsável pelo Museu queria de facto melhorar as condições de visita ao mesmo!

 

- Sr. Alberto! Tem que mandar baixar as prateleiras destes móveis! – Retorquiu a Iara – Nem a Inês na sua cadeira de rodas, nem os meninos mais pequenos conseguem ver todos os objetos que estão neste Museu!

 

- Sr. Alberto, o Museu é tão grande que deveria ter uns banquinhos onde as pessoas se possam sentar para descansar e apreciar os objetos durante um bocado. – Referiu o Rodrigo enquanto passava de sala para sala à procura de mais sugestões que pudessem melhorar aquele espaço!

 

O que começava por ser uma visita de estudo muito complicada tornou-se rapidamente numa espécie de caça ao tesouro das acessibilidades e todos os meninos queriam dar o seu contributo!

 

A professora Sílvia estava muito contente por perceber o quanto os seus meninos percebiam acerca desta temática!

Quando terminou a visita, o Sr. Alberto estava cansado mas cheio de vontade de pôr em prática todas as ideias que os meninos lhe tinham sugerido!

 

- Muito obrigado a todos – agradeceu com um enorme sorriso! – Hoje fui eu que aprendi muita coisa. Prometo que em breve, todas as vossas sugestões se tornarão reais aqui no Museu de Arqueologia e desde já fica o convite feito para a próxima visita 100% acessível!

 

Depois de se despedirem, ficou combinado que o Sr. Alberto telefonaria à professora Sílvia quando tudo estivesse pronto!

Passaram-se algumas semanas desde a visita e os meninos questionavam-se sobre se as suas sugestões tinham sido postas em prática pelo Sr. Alberto, até que um dia o telefone tocou!

 

- Meninos…- Disse a professora Sílvia – Amanhã vão regressar ao Museu de Arqueologia! O Sr. Alberto ligou-me e disse-me que tem muitas surpresas preparadas para nós!

 

A Inês de Cristal estava muito curiosa para saber se já poderia visitar o Museu e à hora do jantar contou aos seus pais tudo os que os seus colegas tinham sugerido ao responsável do Museu e foi-se deitar desejosa pelo nascer da manhã do dia seguinte!

 

De manhã, todos os meninos estavam bastante entusiasmados e rapidamente partiram de novo no autocarro.

Seria desta vez que todos poderiam conhecer o Museu de Arqueologia?

 

Quando chegaram logo repararam que à entrada deste espaço estava construída uma pequena rampa que desde logo iria permitir à Inês de Cristal subir os degraus do Museu sem qualquer ajuda! E claro…a Inês foi a primeira a chegar à porta!

 

A Iara estava muito contente e pulava de entusiasmo junto à porta!

 

A professora Sílvia dirigiu-me para cumprimentar o Sr. Alberto que esfregava as mãos de alegria por receber de novo no seu Museu aquele grupo de crianças que tanto lhe tinha ensinado na visita anterior!

 

- Bom dia meninos! Estou muito feliz por vos ver de novo! Prometido é devido e como tal, esperam-vos maravilhosas surpresas dentro deste Museu! Estão preparados para uma viagem 100% acessível na história da Arqueologia? – Gritou o Sr. Alberto visivelmente satisfeito!

 

- SIM!!! Gritaram todos os meninos em resposta!

 

Depressa todos entraram e em silêncio começaram a ouvir a explicação do Sr. Alberto.

 

- Sejam bem-vindos ao Museu de Arqueologia! A arqueologia pretende mostra-vos um quadro de vida de uma pequena comunidade de pessoas que viveu à muitos milhares de anos…através destes objetos podem descobrir por exemplo, como um simples vaso serviu para alguém cozinhar o seu alimento quotidiano... A arqueologia está ao serviço de uma história onde entram todos os seres humanos e através dela podemos conhecer como viviam e compreender a nossa própria evolução!

 

Atrás do Sr. Alberto, os meninos entraram nos corredores que davam para cada uma das salas de exposição do Museu, e todos puderam usufruir da visita…

 

A Inês de Cristal reparou nas úteis rampas que lhe davam acesso aos patamares superiores das salas, conseguiu chegar perto dos objetos cujas montras estavam agora mais baixas, observou cada uma e conseguiu também compreender peça a peça pois agora também as legendas estavam colocadas de forma a que qualquer pessoa podia lê-las sem esforço!

 

Com as letras um bocadinho maiores, até a Matilde conseguiu ler atentamente a história de cada objeto e no fim da visita já tinha decidido que também ela queria ser arqueóloga para um dia descobrir tesouros como os que tinha visto!

 

A Iara foi à casa de banho e quando entrou ficou muito satisfeita por reparar que as barras que tinha proposto já estavam colocadas, pelo que não precisava de se preocupar com a sua amiga Inês de Cristal.

 

- Ah…que giro! Também colocaram o estrado na parede para os bebés! Boa, assim já posso convidar a minha mãe e o meu irmão para visitar este magnífico Museu! – Pensou a Iara quando se apercebeu de que também nessa sugestão tinha sido ouvida!

 

- Olhem amigos…- indicou o José Pedro – a faixa guia com este cor-de-laranja está muito gira…assim sabemos sempre para onde ir!

- Ainda tenho outra surpresa para vocês – disse o Sr. Alberto ao mesmo tempo que entregava a cada menino e menina uns pequenos aparelhos com uns auscultadores – Chamam-se áudio-guias e servem para vos guiar neste Museu!

 

As gargalhadas e os comentários ouviam-se nos corredores do Museu de Arqueologia enquanto cada menino descobria este espaço agora 100% acessível!

 

O Sr. Alberto ficou muito contente por ter feito estas alterações no seu Museu pois só assim ele conseguiu garantir que todas as pessoas teriam agora oportunidade de o visitar e de desfrutar da sua esplêndida exposição!

 

Quando chegou a casa, a Inês de Cristal, apesar de muito cansada, contou tudo aos seus pais sobre aquele dia! Explicou-lhes que ficou muito contente por saber que agora, todas as pessoas especiais já podem visitar aquele espaço e quando se foi deitar, sonhou que era arqueóloga e que tinha descoberto maravilhosos tesouros que tinham sido deixados pelos seus antepassados…entre eles…estava um mapa que a conduzia até um fantástico Museu 100% acessível onde as peças descobertas por ela estavam expostas para que todas as pessoas as pudessem conhecer!  

 

 

Andreia Guerreiro

Junho 2012

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Khayma às 15:30