Hoje o dia está nublado. O Sol esconde-se envergonhado por entre as nuvens, que teimam em não se querer ir embora, e talvez seja por isso que a Inês de Cristal não se sente muito bem, os seus frágeis ossos doem-lhe.

 

Enrolada nas mantas, a Inês está com alguma dificuldade em arranjar vontade e energia para se despachar para a escola. Depois de olhar várias vezes para a janela grande que está mesmo ao lado da cabeceira da sua cama e ouvir os ramos da árvore do seu jardim a serem ligeiramente sacudidos pelo Sr. Vento, a Inês lembra-se que hoje, a professora Sílvia prometeu que iriam fazer um trabalho novo!

 

 De repente, a menina ganha uma nova energia e chama a mãe para a ajudar a vestir!

  

- Mãe – disse a Inês com muito entusiasmo – hoje na escola vamos fazer um trabalho muito engraçado!

 

-Sério filha? E o que é que vão fazer? Sabes? - Perguntou a mãe com curiosidade.

 

Enquanto a mãe penteava os seus longos cabelos encaracolados e lhe fazia uma bonita trança, a Inês explicou-lhe que o trabalho iria consistir em cada um desenhar um colega de turma e depois apresentar o seu desenho ao resto da classe!

 

- E quem vais desenhar Inês? Acho que vais desenhar alguém de quem gostas muito – perguntou a mãe, quase que adivinhando a resposta!

 

- Mãe, estive  apensar e vou desenhar a Iara! Ela é a minha melhor amiga e por isso tinha que a escolher – respondeu a Inês de Cristal com um grande sorriso.

 

Depois de a mãe ajudar a Inês a vestir-se e a pentear-se, foi com muito carinho que lhe deu um grande abraço e com aquela força de super-mãe, levantou-a da cama e colocou-a na sua cadeira de rodas.

 

A Inês olhou para a sua cadeira de rodas e de repente ficou com a sensação que a sua amiga especial que a transportava para todo o lado estava diferente! Havia qualquer coisa naquela cadeira que já não reflectia a luz de outros tempos. Havia qualquer coisa que já não transmitia a alegria e a força desta cadeira.

 

- Mãe – disse a Inês algo pensativa enquanto olhava à volta da sua cadeira – não achas que a minha cadeira de rodas já está a ficar velhinha e gasta?

 

A mãe olhou com mais atenção para a cadeira e de facto, também lhe pareceu que esta estava a precisar de ser trocada.

Contudo,   neste momento, as despesas com os medicamentos e as consultas de que a Inês precisava constantemente, eram tão grandes, que os pais não tinham dinheiro para gastar na compra de uma nova amiga para a sua filha. Nesse instante, a mãe da Inês, angustiada e triste respondeu à menina.

 

- Minha querida, de facto, a tua amiga especial está a ficar muito gasta, foram muitas aventuras que as duas viveram juntas, mas a mãe e o pai agora não têm dinheiro suficiente para te comprar uma nova. Desculpa filha!

 

A Inês sentiu-se muito culpada e infeliz por ter feito aquela pergunta à mãe, pois sabia das dificuldades que os seus pais enfrentavam todos os dias para lhe poderem proporcionar uma vida mais confortável apesar da sua doença e rapidamente se apressou a dizer à mãe:

 

- Oh mãe! Não te preocupes, esta minha amiga está gasta mas ainda dá para muitas aventuras!

 

- Olha – disse a Inês acariciando a cadeira de rodas – vês...esta minha amiga ainda me vai levar a muitos sítios!

Com a conversa, as duas nem se aperceberam que o Sr. Tempo corria e estava prestes a desaparecer!

 

- Oh Inês, vamos embora! Ai...a escola está quase a começar! – A mãe apressou-se a colocar a Inês no carro e rapidamente chegaram  ao portão verde, onde a D. Filomena já as esperava impaciente.

 

- Inês, hoje já vieste um pouco atrasada! Fiquei preocupada...vá...vamos embora que os meninos acabaram de entrar na sala de aula – disse a D. Filomena enquanto gentilmente empurrava a cadeira de rodas da Inês até à sua sala.

 

De repente, um pequeno e teimoso parafuso saltou da velhinha cadeira e nesse momento, uma das rodas deixou de rolar livremente, o que levou a Inês a chorar, pois ficou preocupada com a sua amiga que a transportava e que era a única que a podia levar para todo o lado! O que iria ser da Inês sem a sua cadeira?

 

Calmamente, a D. Filomena apanhou o pequeno parafuso do chão e disse à Inês:

 

- Olha querida, calma, eu vou chamar o Sr. Manuel e ele arranja-te a cadeira num instante! Não te preocupes!

 

O Sr. Manuel era um funcionário auxiliar da escola muito especial. Este senhor de cabelo já grisalho, de sorriso afável e com uma pequena barriguinha, sabia fazer mil coisas diferentes, desde cuidar dos jardins, a arranjar qualquer coisa que estivesse avariada!

 

- Fica descansada pequena menina de cristal!...Vamos lá ver o que se passa com esta preciosidade que aqui tens! – Disse o Sr. Manuel, que num instante voltou a aparafusar o parafuso traquina e ainda aproveitou para colocar um bocadinho de óleo nas rodas, o que fez com que elas passassem a deslizar muito mais suavemente!

 

Finalmente, depois daquelas aventuras todas logo pela manhã, a Inês entrou na sala de aula e explicou o que se tinha passado, pedindo desculpa pelo seu atraso!

 

- Professora, sabe...a minha cadeira está velhinha e gasta e por isso, há pouco um parafuso saltou, e o Sr. Manuel teve que a arranjar. Mas olhe, ela agora anda ainda melhor, apesar de já não brilhar como brilhava antigamente – disse a Inês enquanto olhava de novo para a sua cadeira de rodas.

 

Ela continuava a achar que faltava algo que voltasse a fazer com que a sua amiga especial brilhasse como ela se recordava que um dia tinha brilhado…faltava-lhe a alegria de outros tempos!

 

A Iara, que entretanto já se encontrava sentada junto da sua secretária, não pôde deixar de reparar na forma como a Inês olhava para a sua cadeira e curiosa, apressou-se a perguntar:

 

- Oh Inês, tu já não gostas da tua cadeira de rodas? Ela já não serve?

 

- Iara, eu gosto, mas ela já não brilha como antes…está gasta! - Respondeu a Inês cabisbaixa.

 

- Mas porque é que os teus pais não te compram outra? – Voltou a Iara a insistir, numa tentativa de arranjar uma solução para o problema da sua amiga!

 

- Sabes, os meus pais não podem comprar outra porque custa muito dinheiro e eles não ganham assim tanto que chegue para uma nova cadeira! Por isso, fiquei um bocadinho triste! – Respondeu a Inês tapando a cara envergonhada com os seus maravilhosos e teimosos caracóis loiros que saltavam da trança e reflectiam a luz do sol de cada vez que os raios atravessavam as nuvens e entravam pela janela da sala de aula.

 

A Iara pôs-se a pensar. Mais uma vez, como poderia ela ajudar a sua amiga Inês de Cristal? Ela não gostava nada de a ver triste.

 

Nesse instante, teve uma ideia. Saiu do seu lugar sem a Inês se aperceber e falou baixinho com a professora Sílvia.

 

A Inês achou estranho estarem as duas a sussurrar e a rir, mas voltou a olhar para a janela e a divagar nos pensamentos sobre a sua cadeira.

 

Ao fim de algum tempo, a Iara voltou ao seu lugar, a professora Sílvia saiu da sala e da porta chamou a D. Filomena que por breves instantes tomou conta da turma. O que teria ido fazer a Professora?

 

Passados alguns minutos a Professora Sílvia regressou à sala e dirigiu-se à auxiliar.

 

- D. Filomena, já falei com os pais da Inês e estamos a preparar-lhe uma pequena surpresa, por isso peço-lhe por favor, que me traga aquelas tintas especiais! - Disse a professora muito baixinho ao ouvido da auxiliar que logo lhe esboçou um sorriso piscando um olho como que em sinal de cumplicidade.

 

Depressa a D. Filomena chegou com uma caixa de madeira enfeitada cheia de pequenas latinhas, cada uma de sua cor. Todas juntas, as latinhas pareciam um pequeno arco-íris brilhante e nesse instante a Professora Sílvia levantou-se da sua secretária e dirigiu-se à turma:

 

- Meninos...afinal decidi que hoje vamos fazer outro trabalho. Este é ainda mais especial! – Dizia a professora enquanto pegava na Inês ao colo e a sentava numa outra cadeira.

 

- Hoje, cada um de vocês vai ajudar a tornar a cadeira de rodas da Inês mais colorida, alegre e ainda mais especial! Agarrem nos pincéis e nas latinhas de tinta!

 

Rapidamente todos os meninos se levantaram das suas carteiras. Estavam muitos entusiasmados e a Iara foi a primeira a desenhar. No seu desenho, ela pintou duas meninas de mão dada a rir, debaixo de um grande sol.

 

- Vês Inês, estas meninas somos nós, felizes e amigas para sempre! – Disse a Iara com um grande sorriso para a sua amiga de cristal!

 

A Inês estava espantada e ao mesmo tempo, muito feliz por ver todos os meninos a colorir a sua cadeira de rodas!

 

- Inês, guardei aqui um espacinho especial para ti. Toma o pincel, pois agora vais terminar tu de embelezar a tua amiga especial! – disse a professora Sílvia, levando a cadeira de rodas para perto da Inês.

 

No centro das costas da cadeira, a Inês desenhou e depois pintou de vermelho e cor-de-rosa, um grande coração e por cima, com a  ajuda da sua professora, escreveu: Obrigado!

 

Aquele obrigado era para todos os meninos, para a professora Sílvia, para a D. Filomena e para o Sr. Manuel que, juntos, tinham voltado a fazer com que a sua cadeira de rodas brilhasse mais que nunca. Estava fantástica a sua cadeira!

 

A tinta já estava seca quando os pais da Inês de Cristal chegaram para a vir buscar à escola e quando viram a cadeira de rodas ficaram impressionados e bastante emocionados com o gesto de todos os amigos de escola da sua filha. Nessa altura perceberam que ali também existiam pessoas que gostavam muito da Inês e que estavam dispostas a fazer tudo para que ela se sentisse feliz!

 

Enquanto a Inês apresentava a sua nova amiga aos seus pais e lhes explicava cada um dos desenhos que os seus amigos tinham feito, a D. Filomena entrou na sala com um saco que entregou à menina.

 

- Oh... D. Filomena é uma nova almofada para a minha cadeira de rodas! – Exclamou a Inês muito entusiasmada com a oferta da auxiliar da escola.

 

Durante toda a tarde, as auxiliares da escola tinham-se unido e enquanto os meninos pintavam a cadeira,  tinham cozido uma nova almofada para a Inês colocar na sua cadeira. Esta almofada foi feita com muitos quadradinhos de pano pequenos que juntos formavam uma espécie de arco-íris muito alegre!

 

Para rematar a decoração, a Iara trouxe ainda uma lindíssima fita de cetim cor-de-rosa. Esta fita foi cortada em dois bocados e com cada um a Iara fez bonitos laços nos braços da cadeira. Estava perfeita!

 

O trabalho estava completo. A Inês de Cristal já tinha uma nova cadeira de rodas! E esta era uma cadeira de rodas ainda mais especial, pois possuía um bocadinho de cada um dos seus amigos de escola.

 

Já no carro e a caminho de casa, a Inês, que estava muito cansada, olhou para trás onde estava a sua cadeira e voltou a contemplá-la.

 

Depois, fechou os olhos e deixou-se dormir.

 

Até casa, a Inês sonhou com os seus colegas, com a Professora Sílvia, com a sua maravilhosa amiga Iara, com a D. Filomena, com o Sr. Manuel e claro...com a sua cadeira de rodas e teve a certeza que depois do dia de hoje, esta ainda a haveria de levar para muitas aventuras.

publicado por Khayma às 19:32