O Rufino era um cão todo branquinho, muito inteligente e que desde pequenino adorava brincar na lama.

Todos os seus 9 irmãos estavam constantemente a gozar por Rufino estar sempre tão imundo, mas ele não queria saber, pois de cada vez que saltava para dentro de uma poça de lama ficava tão feliz que se esquecia das mil vezes que a mãe lhe pedia para não regressar à casota todo sujo.

 

O melhor amigo de Rufino era Arnaldo, um porquinho que estava sempre dentro de uma enorme poça para se refrescar pois a sua pele era muito sensível aos raios de sol quando estes se tornavam muito quentes e a lama protegia-o.

 

Aquela era a maior poça da quinta e por isso a mais especial, mas nem sempre o Rufino podia lá brincar pois era o local preferido dos porcos e quando eles lá estavam todos, não havia espaço para aquele pequeno cão traquina.

 

- Rufino! Não acredito…outra vez todo sujo! – Dizia a mãe quando o seu filhote lhe entrava casota dentro sujando tudo por onde passava.

 

- Olha…afastem-se! Lá vem o Rufino porquinho!!! – Gozavam os irmãos fugindo, com medo de se sujarem quando o cão meio acastanhado pela lama pretendia brincar com eles.

 

Mas será que nenhum dos seus irmãos compreendia o tão fabuloso que era saltar nas pocinhas?? – Pensava Rufino, quando triste, ouvia as críticas do Farrusco e da Pimpolha, os mais velhos da ninhada.

 

O Farrusco e a Pimpolha, eram iguais a Rufino: Branquinhos, com um maravilhoso pêlo luzidio, que faziam questão de manter limpo, pois achavam que só assim poderiam ser escolhidos por um dono simpático que os levasse para uma casa acolhedora e cheia de amor!

 

Certo dia, chegaram ao pé da casota dois meninos que desde algum tempo vinham observando aquela animada ninhada que não parava de correr, saltar, e brincar!

 

Rapidamente 9 cachorros se juntaram aos meninos e como sempre, Rufino, entretido que estava a chapinhar na lama, nem reparou no que se estava a passar!

 

Rufino…olha estão ali dois meninos, não vais lá ao pé deles? – Perguntou Arnaldo preocupado, pois sabia que o dono da quinta não tinha espaço para mais cães e que por isso, algum dia, este seu amigo tinha que arranjar um dono que o amasse e que compreendesse o quão distinto era o seu feitio!

 

O dono ideal para o Rufino seria aquele que o aceitasse tal como ele era…mesmo que um bocadinho sujo!

 

- Não…não vou lá Arnaldo!

-  De qualquer das maneiras, os meninos nem vão olhar para mim, eu estou todo sujo!

- Pelo menos é o que a minha mãe me diz… que sujo ninguém me vai querer!!  

 

Respondeu Rufino observando à distância os seus irmãos que felizes se mostravam aos dois meninos e os rodeavam com inúmeras gracinhas!

 

De facto, os dois rapazes estavam deliciados com aqueles 9 cachorrinhos e por eles levavam todos para casa!

 

Contudo, podiam escolher apenas um e foi a Farrusco que calhou o primeiro lar de acolhimento.

 

Quando viram que Farrusco se ia embora, todos os irmãos ficaram tristes pela partida, contudo, ao mesmo tempo estavam felizes pois sabiam que aqueles dois meninos iriam tratar bem do seu irmão mais velho!

 

Os dias foram-se sucedendo…e com eles foram aparecendo mais famílias que um a um, levaram os 9 irmãos de Rufino : a Pimpolha, o Popey, o Caramelo, o Pantufas, a Boneca, a Princesa, o Cucus, a Luna e a Popota.

 

Todos encontraram amigos que prometeram cuidar muito bem deles e por isso partiram muito felizes.

 

De longe e sem nunca se aproximar, Rufino ficava cada vez mais triste pela partida dos seus irmãos e ao mesmo tempo porque achava que nunca seria escolhido por nenhuma família.

 

Por sua vez, Arnaldo que ia ficando cada vez mais preocupado incentivava ao seu amigo:

 

- Rufino faz o que a tua mãe te diz e vai tomar banho! Não custa nada! Vais ver que até vais gostar! E assim que aparecer um menino ou uma menina, bonito e inteligente como tu és…se estiveres limpinho vais ver que te escolhem logo!

 

Rufino não queria estar limpinho.

 

O Rufino queria poder saltar livremente para dentro das poças, queria sentir a lama a secar no pêlo das suas orelhas tornando-as bem duras e estaladiças!

 

 Mas por que raio ninguém gostava de o ver assim? Ele até achava que ficava com um ar bem giro quando o seu focinho ficava castanho e o seu corpo às manchas!

 

O Rufino sabia que se fosse tomar banho teria que ficar dentro da casota para que não se voltasse a sujar! Por isso, preferia fugir a sete pés de cada vez que a mãe o chamava para tomar um banho!

 

Certo dia, Rufino reparou que o dono da quinta andava de um lado para o outro bem agitado! Que se passaria?

 

Depressa o cachorro compreendeu, quando viu um carro vermelho desconhecido chegar!

 

De lá de dentro saiu um rapazito muito bem arranjadinho e que tratou o dono da quinta por avô.

 

Era Sebastião, um menino de 8 anos, que morava muito longe dos seus avós e que raramente podia visitá-los!

 

Desta vez, o Sebastião vinha passar uma semana inteirinha na quinta e por isso trazia uma grande mala que a sua mãe lhe havia arranjado cheia de roupa, brinquedos e todas as mil coisas que uma mãe acha que o filho irá precisar durante as suas férias fora de casa!

 

Após o almoço, o avô levou Sebastião a ver a quinta e os seus animais! E quando se aproximaram de Rufino o avô advertiu o menino:

 

- Olha meu querido, este é um cachorro completamente diferente, é outro porco que aqui tenho! Anda sempre todo sujo. Já não sei o que lhe faça!!! Não pára de saltar para dentro das poças! Não te aproximes pois vais ficar sujo e a cheirar mal!

 

O menino seguiu caminho com o avô mas olhou para trás, pois não percebendo bem porquê, tinha gostado daquele olhar que se escondia por detrás de um focinho cheio de lama!

 

Rufino ficou infeliz, pois mais uma vez todos se tinham afastado de si!

 

Como o cachorro também gostou daquele menino, Rufino achou que estava na altura de mudar e por isso correu para o grande lago que havia perto da quinta e tomou um grande banho!

 

À medida que avançava para dentro de água, a lama escorria e deixava descobrir o maravilhoso pêlo branco que cobria o cachorrinho!

 

Quando Rufino chegou de novo à quinta os animais ficaram espantados pois desconheciam a beleza do cachorro!

 

- Uau! Rufino…mas afinal tu és o mais bonito de toda a ninhada! – Disseram todos em coro!

 

A mãe estava orgulhosa de Rufino e achava que a partir daquele dia o seu filhote iria ganhar juízo e deixar de saltar para dentro das poças de lama.

 

Como estava ela enganada!

 

Nesse instante, Sebastião saiu a correr de casa desejoso de brincar na quinta.

 

Rapidamente o menino chegou perto de Rufino que acabava de secar o seu pêlo húmido sacudindo-se freneticamente!

 

O cachorro nem se apercebeu da presença de Sebastião e na última sacudidela…

Splash! Molhou o menino!!!

 

Ups…agora é que ninguém iria querer saber dele!!!

 

Rufino ficou muito envergonhado e dirigiu-se ao menino para lhe lamber as mãos em sinal de pedido de desculpa!

 

Sebastião aceitou as desculpas de Rufino e abraçou-o para que ele compreendesse que não lhe tinha feito nada de mal! Pelo contrário!

 

Sebastião desatou a correr e chamou Rufino:

 

- Anda cãozinho! Anda…vamos correr !!!

 

Os dois desataram a correr e Rufino reparou que o menino se dirigia para a poça gigante dos porcos! Ele não conhecia a quinta e nem tinha reparado na quantidade de lama que a mesma tinha e isso era perigoso!

 

Rufino decidiu correr ainda mais depressa para saltar para dentro da poça e mostrar a Sebastião que não poderia correr para ali pois iria ficar todo sujo e os avós podiam não gostar!

 

Num grande salto, o lindíssimo cachorro branco caiu dentro daquela poça que tantas vezes o tinha deliciado e de lá saltou uma enorme quantidade de lama que salpicou todos aqueles que estavam à sua volta.

 

Sebastião parou, olhou para Rufino e desatou a rir! Ele achava que o cachorro estava muito engraçado e para surpresa de todos saltou também para dentro da poça!

 

Rufino ficou estupefacto e sem saber como reagir até que o menino o abraçou de novo feliz!

 

Rufino e Sebastião tinham encontrado algo em comum…algo especial…e algo bem sujo: ambos gostavam de chapinhar nas poças!

 

Os dois amigos estavam muito felizes e brincaram a semana inteira dentro das poças de lama que se encontravam espalhadas pela quinta e que Rufino fez questão de mostrar a Sebastião!

 

Os dias passaram depressa e quando chegou a hora de voltar para casa, Sebastião pediu aos pais e aos avós e decidiram então levar Rufino para junto do menino que estava mais feliz do que nunca com o seu novo amigo!

 

Desde aí, Rufino é um cão amado por toda a família.

 

Tornou-se bem comportado e limpinho…

 

Mas quando caem umas pingas de chuva e se formam poças ….

 

 

1 de Novembro de 2011

Andreia Guerreiro

publicado por Khayma às 17:46